EXCERTOS ERRANTES, pedaços poéticos que cobrem o espaço.

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NOTA PÚBLICA SOBRE OS ACONTECIMENTOS NO EVENTO ARRUAÇA TEM DE NOVO

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Foto por Sofia Cortese

No último sábado, dia 07 de Novembro de 2015, o coletivo Arruaça e a banda Trabalhos Espaciais Manuais (TEM) organizaram um evento cultural gratuito chamado ARRUAÇA TEM DE NOVO, realizado no centro de Porto Alegre, na estação Mercado. Esse evento consistia numa proposta de celebração/ação de rua na qual fosse construído um espaço aberto de entretenimento, exposições artísticas diversas e ocupação do espaço público. A própria escolha de um local central como a estação Mercado fez parte da proposta política e estética do evento, uma vez que acreditamos na importância de habitar a rua com a maior diversidade possível de corpos e artes, de estar presente nos espaços públicos de forma crítica e criativa e de propor cada vez mais formas de estar e criar na cidade, de criar e estar em relação.

Em meio às diversas belezas e potências que atravessaram o evento um turbilhão de acontecimentos negativos tomaram demasiada proporção e acabaram produzindo um grande choque em todxs nós: uma enorme quantidade de furtos e assaltos à mão armada, na qual uma grande quantidade de pessoas foram afetadas (inclusive da produção do evento). A própria banda TEM, após o fim do show, na desmontagem do equipamento, teve um carro repleto de instrumentos e equipamentos violentamente assaltado, sendo que um de seus integrantes foi ferido na cabeça e teve de ser levado ao HPS para tratamento médico. Diante do ocorrido, entre desesperos e tentativas de reorganizar o espaço, o coletivo optou por manter a programação pelo menos até o amanhecer (para garantir que as pessoas que lá estivessem permanecessem juntas e evitar uma situação de ‘cada um por si’) enquanto xs membros da banda se encaminhavam ou para a polícia registrar o b.o. do assalto ou para o hospital receber os tratamentos devidos ou para suas casas tentar minimamente descansar.

Felizmente, o carro com os equipamentos foi encontrado e os danos materiais foram minimizados, mas achamos que a situação merecia um olhar mais atento, analítico e crítico, no sentido de poder se colocar sempre em questão.

Após muitas conversas e uma reunião realizada na segunda-feira dia 09 decidimos elaborar essa nota para publicizar alguns dos posicionamentos e dos movimentos de crítica e auto-crítica do coletivo Arruaça diante dos acontecimentos que se deram no evento ARRUAÇA TEM DE NOVO, assim como diante da repercussão do ocorrido e do tom das discussões que se deram após o evento.

Antes de qualquer discussão, o coletivo Arruaça presta todo apoio à banda Trabalhos Espaciais Manuais, grande parceira de outras datas, e expressa o comprometimento de colaborarem eventos e demais formas de tentar levantar verbas que ajudem a custear o prejuízo, e, principalmente, no apoio afetivo às pessoas da banda que sofreram um terrível episódio de violência, que,infelizmente, é característico da realidade de rua em diversos centros urbanos. O coletivo Arruaça também se solidariza com as diversas pessoas que foram vítimas desse tipo de violência (furtos e assaltos) que é tão presente em nossas cidades e que é apenas mais um dos muitos sintomas que escancaram a situação de extrema desigualdade social na qual vivemos, onde a maioria da população carece das condições mínimas para viver com um pouco sequer de dignidade.

Por outro lado, compreendemos como problemática a situação que se desencadeou após o evento, na qual assistimos a uma enxurrada de discursos de ódio e de proposições de cunho explicitamente ou implicitamente elitistas, racistas e/ou segregacionistas. A violência urbana é um grave problema social que atravessa nosso país e que se caracteriza como um elemento cotidiano na vida da grande maioria da nossa população. Assim, não podemos aceitar que essa questão tão grave seja discutida de uma forma simplista que apenas colabora para reproduzir as diversas desigualdades que recortam nossas cidades em relações tensas de opressão, exclusão e invisibilidade social. Escrevemos isso porque diversas pessoas reclamaram do evento por que lá “faltava segurança” ou porque o evento estava “cheio de marginal” ou “repleto de chinelões”. Outras pessoas, na busca por uma forma de compreender o acontecido, afirmaram que esse problema da violência ocorreu por causa da presença de pessoas da periferia no centro, o que acabou construindo nessas discussões uma certa divisão entre um suposto “nós” contra um suposto “eles”, que compreendemos como inaceitável. Por fim, diversas pessoas se posicionaram no sentido de exigir do coletivo Arruaça uma responsabilidade pela segurança em nossos eventos, que deveria ser suprida por nós por meio de uma parceria com a brigada militar ou com empresas de segurança privada que ficariam encarregadas de fazer a “nossa segurança” em “nossos eventos de rua”. Diante dessas cobranças, o coletivo Arruaça se sente no dever de explicitar o quão paradoxal, elitista e inaceitável é essa proposta: convocarmos o Estado ou uma empresa qualquer para “nos proteger” “da rua” em “nossos eventos de rua”? Que “nós” é esse? Que “rua”, afinal, é essa?

Esta declaração não tem por fim lavar as mãos ou nos desresponsabilizarmos da violência e dos riscos que corremos em nossos eventos. Não é, tampouco, culpabilizar as vítimas nem os agentes de tais atos. Culpado é o Estado que não cumpre o papel que lhe cabe que é garantir a segurança e o livre acesso às ruas. Que militariza a segurança pública e exerce sem piedade o monopólio da violência. Que estimula o discurso dicotômico de que os vilões estão nas ruas ou na periferia, enquanto que os mocinhos se protegem atrás de suas propriedades. A tão desejada segurança não será conquistada com polícia. Sim, a polícia faz parte do processo, e a desmilitarização dela mais ainda, mas entendemos que o investimento público em segurança se dá através de políticas públicas de assistência, cultura, saúde, transporte, inclusão, redistribuição de renda, reforma urbana, reforma agrária e por aí adiante. Não é novidade pra ninguém a brutalidade da Polícia Militar no Brasil vide casos recentes altamente midiatizados como o do Amarildo, da Cláudia, do DG, dos 400 mortos em maio de 2006 em São Paulo, dos 19 mortos em uma noite em agosto de 2015 em Osasco, da Feira do Livro Anarquista Feminista em novembro de 2015 em Porto Alegre, e a lista é infinita. O Estado vem fazendo um genocídio das periferias, principalmente do povo negro e jovem, e SIM todxs temos responsabilidade quanto à isso. Mas, principalmente, temos a responsabilidade quanto à mudança dessa realidade.

Desejamos provocar uma co-responsabilidade que englobe todas as pessoas que lutam pelo direito à cidade e seus espaços. É por isso que estamos na rua e, para tornar possível, precisamos compreender e re-significar os enunciados historicamente construídos acerca da segurança. Saber que não existe um Fora da rua que não seja ela própria. Que para ir para a rua é preciso respeitar e viver sua heterogeneidade e estimulá-la nos eventos. Ocupar para integrar, e não para colonizar. Entendemos a rua como espaço de disputa, como um espaço aberto e heterogêneo no qual se enfrentam e se confrontam cotidianamente uma grande diversidade de pessoas, sendo algumas mais ou menos invisíveis que outras, de modo que o “estar na rua” é compreendido por nós  como uma ação que deve ser pensada constantemente.

Ao propormos eventos de rua com o objetivo de ocupar espaços públicos, a primeira questão que logo se coloca explicitamente é que a rua não é um lugar desocupado. Nesse sentido, nos questionamos se o que estamos fazendo é ocupar a rua ou se seria apenas mais uma das diversas formas pelas quais um certo grupo favorecido invade o espaço de outros grupos mais invisibilizados.

Realizamos essa auto-crítica porque queremos estar cada vez mais na rua, cada vez mais próximos das realidades locais, cada vez mais próximos de quem lá já habita. Nossa legitimidade na rua vai depender da nossa capacidade de estar junto de quem já está nela. E, para nos protegermos de possíveis violências – diante da ausência do Estado – devemos praticar o cuidado de si e dos outros. Cuidar de nossos corpos, ajudar e colaborar na produção dos eventos, colar juntos nas reuniões. Somos um coletivo, não oferecedores de um serviço que visa transformar a rua num cercado de conforto e bem-estar. 30 pessoas não conseguem cuidar de 1000. Mas 1000 pessoas tem força de se cuidar e de se mostrar solícitos e convidativos a outras tantas 1000 invisibilizadas marginalizadas desse próprio espaço.

Vai ter arruaça sim, cada vez mais!

Vem junto!

Página do Arruaça no Facebook >>> facebook.com/coletivoarruaca

Não é a isso que conferimos suportáveis os grandes mistérios do mundo? Suportáveis pois… – Por Rodrigo Isoppo

Toda propriedade da linguagem sendo impossível, o escritor e o homem privado (quando ele escreve) são condenados a variar desde o início suas mensagens originais, e já que ela é fatal, escolher a melhor conotação, aquela cujo aspecto indireto, por vezes fortemente retorcido, deforma o menos possível, não o que eles querem dizer mas o que eles querem dar a entender”.

Roland Barthes – Crítica e Verdade

Os buracos negros estão negros demais e é frio, seco e escuro. Medo. Poderia apenas gritar mas ninguém me compreenderia. O grito é de uma outra natureza. Aglutinadora natureza que vem de fora pra dentro. Sucção. Ilhado nesse mar de mortes. Maremortos. Obstinado a colorir todo esse nada negro e sombrio. Num bolso uma lanterna sem pilhas, no outro uma pistola com apenas uma bala. Disparo. Repare na produção óptica do fogo em combustão. Ela é um instante e não revela nada mais que a si própria. Se tivesse uma lanterna com pilhas, revelaria tudo menos ela própria. E de que adiantaria o uso desse instrumento em um buraco negro, frio, seco e vazio? Deixe a lanterna pros escavadores da verdade. Escava dores. O disparo é um recurso: quem sabe do seu estampido alguém note minha presença e me salve? Ou ao contrário, que um corpo infeliz receba essa bala no peito e me peça ajuda? De um modo ou de outro dariam conta da presença. Receberiam. Se afetariam. Reagiriam. Alguém haveria de estar a beira da morte, ou eu ou o outro. Inexprimir o mistério, palavra-pouca. Palavra à toa. Nada de misteriosa. Inexprimir essa calada palavra morte. Morte. Qual seria sua segunda mensagem? Como transfiguro o grito para o fora? Em pazes com o mistério, suportando-o e produzindo-o na bala que vai se conduzindo no peito próprio de quem agora me empresta a mão para me puxar desse vazio. E assim, cúmplices não de um saber, mas de um não-entendimento comum. Cumplicidade do mesmo disparo. Da mesma bala. De alguma salvação…

Escrituras – por Rodrigo Isoppo

Rabisquei alguma coisa de poema na minha boca

Afoguei-me na tinta das próprias palavras

Pedi socorro e nada, nada. A letra sangrava

Aí veio o dia e o engasgo embaralha, mas recompõe-se

Mas deparo-me com uma enchente de lágrimas

Dou risadas e risadas.

Mergulho as frases no carpete da sala

Me sorvo de um instante de sobriedade

E o poema fugidio se comporta aos poucos

Teima mas expele algo

de sua própria saliva

algo do incontrolável

algo do incontido

e se escorre como sonho percorrendo o continente.

DEFESA PÚBLICA DA ALEGRIA – por Caleb Faria Alves

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Em todo o mundo hoje ecoa a pergunta, como responder à traição das utopias da esquerda pelos próprios membros da esquerda? Em nome de se manterem no poder, muitas reformas foram adiadas: a da educação, saúde, meio ambiente e segurança. Agora vemos ameaçada a liberdade fundamental de ir e vir, de nos organizarmos. Liberdade que já foi tida, pelos que hoje a ameaçam, como a diferença fundamental entre a ditadura e a democracia. Querem cercar as praças, transformar a cidade em conglomerados de conjuntos fechados, responsabilizar vítimas pela agressão iniciada pela polícia, eliminar de vez a rua.Quantos dos que hoje estão no poder não repetiam a frase atribuída a Voltaire quando em face de um adversário: “não concordo em nada com suas palavras, mas defendo até a morte o direito que tens de dizê-las”.  O que estamos vendo não é apenas a criminalização dos movimentos sociais, estamos vendo a tentativa da criminalizar a possibilidade da construção da diferença, dos seus mecanismo essenciais de gestação: o reunir-se, o ler, o caminhar juntos. Querem nos forçar a acreditar que direitos sociais se referem à presença de um boneco inflável no meio de uma praça pública, um boneco símbolo  de um projeto em nome do qual populações foram desalojadas de forma truculenta para um destino incerto, uma quantidade imensa de dinheiro público foi desviada, obras faraônicas e desnecessárias passaram a se avizinhar com hospitais e escolas mal equipadas. Tudo isso desafia nossas certezas, nossas convicções.

E como responder a esse desafio? Temos encontrado caminhos, principalmente, na nossa fantasia. Nossa imaginação não se rende, não se acovarda, ela ri, debocha ; ela pinta e escreve, ela voa redonda nos ares nas mãos dos malabaristas e se equilibra nas cordas esticadas nos parques; ela procura endereço no meio da rua e mora na Duque; ela passeia na Ipiranga e desce em massa a Borges; ela se planta ao lado das árvores do Gasômetro; ela retrata e filma as noites, as esquinas, a repressão à provocadora liberdade dos afetos singelos e simples entre pessoas livres; ela se alimenta do beijo que não tem motivo ou constrangimento, apenas o gostar. Em tudo deixamos nossa marca. Conquistamos, dessa forma, algo da maior importância: por tudo que fizemos, eu não vejo mais essa praça, nem essa cidade, eu vejo, e verei sempre, a paisagem que construímos nesses espaços, a imagem que colamos na frente do retrato controlador e azedo dos poderes públicos. Vejo e verei sempre, quando olhar para esse e outros lugares, a alegria de todos aqui. Verei porque ela está marcada na minha experiência do que é essa cidade, impressa nos corpos de muitos de nós a carimbo de cassetete. Tenho muito orgulho dessa herança que trago comigo e agradeço a todos os participam dela. É o que me faz sentir que a cidade é nossa. E que pode ser alegre.